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Família alerta mães sobre o consumo de álcool durante o período de gestação

Pais de Ana Victória em momento de interação com a pequena; eles afirmam que doença não foi barreira para adoção/Foto: Juan Diaz Pais de Ana Victória em momento de interação com a pequena; eles afirmam que doença não foi barreira para adoção/Foto: Juan Diaz

Os pais da pequena Ana Victória, sete anos, Cleisa Brasil e Cleiver Lima, que a adotaram quando ela tinha noves meses de nascida, alertam para mães que pretendem engravidar ou já estão grávidas sobre o perigo do consumo de bebidas alcoólicas para o bebê.

Victória tem a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) uma doença congênita provocada pelo consumo de bebidas alcoólicas na gravidez e a principal causa de retardo mental e de anomalias congênitas não hereditárias em crianças. Por essa razão, representa grande problema de saúde pública.

Quando ingerido pela gestante, o álcool, que age como substância tóxica no organismo ainda na formação do bebê, cruza a placenta e penetra o feto diretamente pelo cordão umbilical. Em cerca de uma hora, a taxa de álcool, no sangue do feto, é a mesma encontrada no sangue da mãe.

Os sintomas da SAF são: prematuridade, atraso no crescimento pré e pós-natal, baixo peso ao nascer, microcefalia, deformação facial (queixo retraído, olhos de menor tamanho, queda da pálpebra superior, lábio superior fino), deformidades do esqueleto e dos membros, malformações em órgãos como coração e rins, distúrbio de visão, má coordenação, má-nutrição, perda de audição, baixo desempenho escolar, problemas na fala, fenda palatina ou labial.

No mundo, a estatística é de 1 a 3 casos por 1.000 nascidos vivos. No Brasil, não existem dados oficiais sobre a síndrome. Entretanto, existem números preocupantes, de universos específicos, que indicam que a questão ainda é desconhecida e negligenciada. Um estudo realizado com quase duas mil grávidas, apontou que 33% bebiam mesmo esperando um bebê. O mais grave: 22% consumiram álcool até o dia de dar à luz.

Outros pais, que se dispõe a realizarem uma adoção, preferem crianças saudáveis, mas Cleisa e Cleiver saíram do “comum” e ao se cadastrarem para adotar uma criança não fizeram exigências. Adotaram Victória dando uma lição de vida sobre o que é o amor incondicional por um filho.

“Para a gente não importava se fosse preto, branco, índio, menino ou menina, saudável ou com alguma doença, a gente queria um filho. Por isso muitos casais não conseguem adotar, porque focam em detalhes. Não colocamos características, a única coisa que colocamos, por uma preocupação minha, foi que tivesse até um ano de idade, pois eu não tinha uma experiência prévia com criança e não saberia como lidar com um filho maior que me questionasse por ser adotado”, explica a mãe, dizendo ainda que para a adoção da segunda filha não estipulou idade por já possuir experiência com Ana.

Cleisa relata que por não exigir características quando foi para a entrevista do processo com a psicóloga e a assistente social o casal foi questionado o motivo de não ter preferências.

“Explicamos que estávamos no processo para ter um filho e como todo casal, que terão filhos biológicos, o desejo é ter um filho e independente de como venha eles irão aceitar e amar como ele vier. E é isso que estamos esperando. Após a entrevista recebemos uma ligação, coisa de dez minutos, onde nos diziam que tinham uma criança e éramos os pais perfeitos para ela. Nos informaram que ele tinha problema de saúde, que não sabiam qual era ao certo, falaram sobre ela ser pequena e que podia, talvez, nem sentar ou andar. E ao me perguntarem se queria conhecê-la, não pensei duas vezes e disse que claro que queria, pois era minha filha”, contou Brasil.

Os pais contam que quando viram a pequena ficaram surpresos, pois com nove meses ela tinha peso de um recém-nascido. Mas que não pensaram em desistir e passaram a visitá-la até que a trouxeram para casa.

“Por isso acho importante que quem tenha o interesse em adotar uma criança saibam que o educandário não é uma vitrine que você chega pra escolher”, destaca o pai.

Desde que levaram a pequena para casa começaram a busca do diagnóstico para saber do que se tratava e ao ficarem cientes da SAF começaram a cuidar para garantir uma qualidade de vida para a filha.

“Perguntamos qual seria a quantidade de álcool para desenvolver a síndrome e o médico nos respondeu que não tinha um volume de consumo, podia um copo ou mais e a criança podia desenvolver”, diz Cleiver.

De acordo com o casal, que se aprofundou a entender a SAF, os estudos apontam que tem mães que consome álcool durante toda a gestação e o bebê nasce sem problemas, outras consomem eventualmente e a criança apresenta uma das características da síndrome.

Os pais pretendem fazer uma campanha para alertar as mulheres e seus parceiros que não tem um nível seguro para o consumo de álcool durante a gestação.

“Estamos com a ideia de disseminar essa informação e falamos com médicos que nos apoiaram. O problema é que como é uma síndrome que é provocada, e que pode ser evitada, existe um tabu sobre o assunto. Daí o que acontece, a mãe que o filho nasce com a SAF não admite que foi por conta do álcool ingerido. Em conversa com uma médica perguntei se ela encontrava atendia crianças com a doença e ela afirmou que sim. Só que quando informam as mães elas desaparecerem”, conta o casal.

Para eles, é importante que os pais que os filhos sejam diagnosticados com a síndrome quebre o tabu, pois todo mundo erra, mas depende deles fazerem um acompanhamento para melhorar a vida do filho.

“Hoje, nossa filha anda, pula, corre, mas se ela não tivesse recebido o tratamento no início, talvez, se sobrevivesse, estivesse em uma cama ou, na melhor das hipóteses, em uma cadeira de rodas. Ela precisou de toda uma estimulação para ter a condição que tem atualmente, mesmo com limitações”, conta Cleisa.

REPORTAGEM ESPECIAL DRYELEM FOTO JUAN DIAZ 2Pais pretendem criar uma ONG de apoio a mães de filhos com SAF

Além de alertar as mães sobre a síndrome, o casal, após convier um tempo levando Victória para tratamento no Dom Bosco e perceber que mesmo o serviço sendo importante não é suficiente, pensa em criar uma ONG para oferecer apoio a mães de crianças com SAF.

“Há dois anos, pensamos em criar uma instituição que ofereça serviços como fisioterapeuta, psicólogos, fonoaudiólogos, porém não temos como bancar por esses profissionais. E nos preocupamos com a mãe, pois tem casos em que a criança não anda e ela vive em função do filho e não cuida da própria saúde, não trabalha e vive somente com o beneficio que o governo oferece”, disse os pais.

A ideia da ONG é poder ofertar meios para essas mães façam curso de corte e costura, manicure entre outros.

“Já que não podemos pagar profissionais de saúde para realizarem atendimentos fixos para as crianças, pensamos em chamá-los para participarem de encontros, seja uma vez por mês, para uma conversa. Por exemplo, uma tarde com um fisioterapeuta que ensine exercícios que possam ser feitos em casa para estimular as crianças”, disse Cleisa.

O casal pretendia, ainda, colocar a campanha de prevenção na rua imprimindo folders e distribuindo para a população. Mas em uma conversa com o Ministério Público Estadual, que acatou a ideia, irão fechar uma parceria para a distribuição de material nas comunidades.

Mães que consumiram álcool durante a gravidez

REPORTAGEM ESPECIAL DRYELEM FOTO JUAN DIAZ 7Mesmo sendo alertadas, durante o pré-natal, para não ingerirem bebidas alcoólicas na gestação, algumas mães ainda fizeram consumo. Algumas desconheciam a SAF, só sabia que podia fazer mal, mas não sabia da gravidade do uso.

Fernanda Oliveira tem dois filhos, segundo ela, bebeu nas duas gestações, mas nada que a levasse a um porre. “Eu não sabia que tinha exposto meus filhos a serem sujeitos a nascerem com essa síndrome. Bebi, mas nada com exagero era sempre um ou dois copos para matar a vontade. Hoje, não tomaria novamente sabendo desses riscos”, diz a mãe.

Já Emanuele Saldanha, mãe de três filhos, diz que não ter dito conhecimento da síndrome, mas que também nunca ingeriu álcool em nenhuma das gestações. “Sempre tive gravidez de risco, nem refrigerante eu tomava por achar que iria fazer mal aos meus filhos”, conta.

Helena Costa relata que a filha tem quatro anos e não fala, mas nunca passou pela cabeça que isso possa ter algo com o consumo da bebida alcoólica que fez na gravidez.

“Vou levar minha filha no médico e realizar exames para saber se tem algo relacionado com a SAF, não consumi exageradamente, foi algo eventual. Fiz todo o acompanhamento com o pediatra e ele nunca me alertou sobre isso”, afirma a mãe.

Geneticista alerta que consumo de álcool deve ser zero

O recomendável, segundo a médica geneticista Bethânia Ribeiro, que mulheres em idade fértil ou que estejam tentando engravidar não façam ingestão de nenhuma quantidade de bebida alcoólica, pois o desenvolvimento embriológico da criança é rápido e quando as mães descobrem o bebê já está todo desenvolvido.

“Se no período dos dois primeiros meses de gestação a mulher ingerir álcool já pode causar uma sequela no filho. Lógico que, as alcoólatras têm mais chances, mas nenhum nível de álcool é seguro. Por isso o uso deve ser zero”, diz a profissional.

Ainda de acordo com a médica, o consumo de bebidas alcoólicas pela gestante pode levar a abortamento, natimortalidade e à prematuridade. O álcool consumido durante a gestação também pode resultar em danos ao embrião/feto agrupados no termo espectro de desordens fetais alcoólicas (da sigla em inglês FASD – fetal alcohol spectrum disorders). Esses danos incluem alterações físicas, mentais, comportamentais e/ou de aprendizado que podem ser irreversíveis e levar a problemas mentais, dificuldades escolares e no trabalho.

“Hoje, a doença virou um espectro desde o quadro mais grave, que é a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) até crianças com distúrbio de comportamento, que ao nascimento não se visualiza nada, mas ao longo da vida nota-se algumas alterações sociais, de aprendizado e se for pesquisar a mãe fez uso de álcool”, explica.

Bethânia afirma que a síndrome é algo prevenível, se a mulher não usar bebidas alcoólicas durante a gestação o filho não terá a doença. Para Ribeiro, mais do que ir atrás de quem é alcoólatra, por serem pessoas de maior risco, deve-se conscientizar a população inteira, pois o álcool é uma droga liberada, que todos usam a quantidade que quiserem.

O medo de assumir que consumiram álcool na gestação

A médica conta que todas as gestantes, que entram no hospital, são perguntadas se fez uso bebidas alcoólicas, cigarros ou outro tipo de droga.

“Temos que confiar na resposta e, uma vez ou outra, sabemos que elas não falam a verdade, pois sabem que não devem usar. As que admitem as crianças são acompanhadas por mim e mesmo saindo daqui com consultas marcadas a grande maioria não volta por pensar que a criança está bem e não terá problemas no futuro e esse é o impasse que temos”, explica Ribeiro.

Segundo a geneticista, o desenvolvimento neurológico da criança começa na fecundação e os neurônios continuam se desenvolvendo rapidamente até os dois anos. Por isso ela alerta que nem durante a amamentação a mãe deve consumir bebidas alcoólicas, para evitar que as crianças desenvolvam algum tipo de problema.

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